Só o sebo de carneiro salva o Flamengo

13/09/2017
Thiago, goleiro do Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Abro a página em branco para tratar do Flamengo x Cruzeiro, e uma súbita queimação na mufa me leva a afastar o lepitópi. Quem seria capaz de falar sobre uma partida de futebol em tempos nebulosos como estes? Somente um monstro, um débil mental ou um paspalho se atreveria a escrever sobre uma final de Copa do Brasil em pleno setembro de 2017. Pois sou, de bom grado, este monstro, este débil mental, este paspalho.

Que se pode fazer? Lembro o notório louco por futebol Nick Hornby, na antológica introdução de seu livro (livraço) “Febre de bola”: “A verdade é a seguinte: durante trechos alarmantemente grandes de um dia normal, sou um retardado.” Pelo Arsenal, no caso dele. Cada um com suas armas, mas o inglês está certo: a resposta, meu amigo, é desbundar, apelar para a válvula de escape mais à mão, ou enlouquecer e se rasgar lendo os jornais.
Prefiro endoidar aos poucos, como minhas irmãs e irmãos flamengos, em especial os que vejo por este dias nas esquinas e bares da cidade. Você os reconhece de longe. Olham para os cantos, perdidos, exibem olheiras fundas como as do treinador Reinaldo Rueda, enquanto empunham caveiras imaginárias, remoendo: “Muralha ou Thiago, eis a questão!”. Sim, qualquer questão é melhor do que se ver de volta à razão, ou ao governo Temer.
Demorou, mas depois de uma semana, enfim consegui abstrair as seguidas falhas sob as traves rubro-negras, deixando a aflição escapar (e parar bem no pé do atacante do Cruzeiro, ai Jesus).
O que me ajudou bastante nesse sentido foi uma chegadinha à aprazível Tijuca, endereço de uma clínica ortopédica a que fui obrigado a visitar por conta de uma estripulia que lesionou minha mão direita. O dia estava bonito, a vista da Lagoa era agradável do banco de carona, e os pensamentos vagavam (“Que bonito o Cristo empedradão de braços abertos, parece o Muralha na hora da falta…”), quando fui interrompido pelo motorista, quase na boca do túnel André Rebouças:
– Arrumou o que nessa mão aí?, reparou o simpático chofer, um paraibano da cidade de Sapé – Pois olha, eu passei seis meses quase sem trabalhar de tanta dor, até que o primo me trouxe a cura lá do norte. Tiro e queda, esfrego duas vezes por dia. Sabe o quê? Sebo de carneiro! Ué, tá rindo?
Rindo era apelido, eu flatulava todo o estofado do carro de tanto gargalhar. Já não tinha nem mais ar, mas o paraibano animou-se e foi em frente, sem ligar para minhas convulsões:
– Sebo de carneiro sim senhor, pode botar fé. Mas tem de ser natural hein, não essa imitação que o povo vende em qualquer lugar no Rio. De preferência de carneiro capado! Você passa assim ó, na região machucada, e o calor alivia a dor na hora. Age na junta, sabe? Com poucas aplicações a mão ficou boa, fera…
Enquanto eu me reaprumava, o paraibano discorreu então sobre outras maravilhas da medicina natural do norte. Sucupira para artrite, saião para gripe, chá de espinheira santa para caganeira, catuaba para.… Mas o pensamento voltou, debilmente, para o nosso sofrido elenco, que além de disputar algumas peladas encarniçadas já foi obrigado a jogar quase 50 jogos este ano.
Será que não valeria importar uns bons nacos de sebo de carneiro para auxiliar no tratamento dos nossos craques? Não será isso que anda faltando ao joelho de Conca, aos quadris de Rômulo, aos pés do Trauco e a uns 201 ossos do Rafael Vaz? Do Rio de Janeiro ao sertão da Paraíba vai-se em pouco mais de 20 horas pela estrada. Seria maldade, amigos e amigas flamengas, pedir ao ocioso treinador de goleiro Victor Hugo para dar um pulinho lá, talvez de bicicleta?
Pensando tamanhas besteiras o trânsito passa mais rápido, e logo cheguei ao meu destino na praça Saens Peña, uma clínica especializada em mãos, dedos e punhos. Saltei do carro agradecido e, só então, ao me ver entre outras dez múmias, jovens e senhoras com os bracinhos enfaixados em tipoias, tive a revelação que me fez perdoar Alex Muralha, Thiago Rodrigues, Victor Hugo e todos os seus colegas de profissão. Amigo leitor, nossos goleiros não têm culpa; o brasileiro em geral é que ainda não sabe direito usar as mãos.
Sim, somos todos como bebês de colo, que não se entendem com os próprios dedinhos. Empurrei as revistas velhas da mesa, pedi lápis e papel à secretária e comecei, ali mesmo, a redigir a importante tese, que me dará fama, reconhecimento e fortuna, assim que eu conseguir entender os garranchos escritos com minha mão canhota. O fato é que o tratado terá mais de 217 páginas, e exemplos de carne e osso que provam o que estou dizendo, do Romero Brito às dançarinas de axé, dos jogadores de vovôlei do Leblon ao Armando Volta, o “Sambarilove” aquele do toca-pintinho.
Não importa sobre o quê, o lance é continuar escrevendo. Para esquecer de onde estamos, mas principalmente de quando estamos.
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A mão ainda não está totalmente curada, mas quando melhorar prometo escrever sobre as 238 almas flamengas (sim, 238!) que tiveram a coragem de presenciar aquela pelada vagarenta no Engenhão. A desprestigiada peleja, entre um Botafogo de travas altas contra um Flamengo de saltos idem, me fez recordar o causo que era contado pelo cronista Sandro Moreyra. Jogo no interior, vazio de dar dó, e o locutor anuncia, pelo alto-falante: “PÚBLICOOO PAGANTE: Dr. Carmo, seu Afonso da farmácia, Dr. Alberto e senhora, padre Silva…”. Aposto que nem o padre Silva nem o alvinegro Moreyra teriam ido ao Engenhão no último domingo.
MARCELO DUNLOP