Pedro Venancio: “Paquetá e Vinícius Jr escancaram portas dos profissionais para a base do Fla”


Depois de tanto oba oba e festa com contratações (o futebol brasileiro se acostumou a cobrar por isso e o Flamengo, mais especificamente, a partir de 1995 com a vinda de Romário), o Rubro-Negro chegou a um momento em que a base resolve tanto ou mais do que os contratados a peso de ouro (para padrões brasileiros). O desempenho em campo de Lucas Paquetá e o retorno financeiro da venda de Vinícius Júnior, além dos gols feitos por ele em campo (como o deste sábado contra o Botafogo), escancararam as portas dos profissionais para a base do clube.

O receio de botar a garotada era claro. O Flamengo ficou, entre as saídas de Renato Augusto e Jorge, nove anos sem fazer uma grande venda (entre 2008 e 2017). Ganhou, é verdade, dinheiro com Samir, vendido para a Udinese, e de jogadores que não foram formados no clube, como Hernane Brocador. Os números são sintomáticos. A transferência de Vinícius Júnior para o Real Madrid é a única do clube entre as 50 maiores vendas de jogadores da história do Brasil. Para efeito de comparação, Santos, Internacional e São Paulo, líderes na questão, somam oito negócios, cada um (fonte: Transfermarkt).

Houve também o convívio com traumas internos, como as saídas baratas de Marcelinho Carioca, Djalminha, Paulo Nunes e Júnior Baiano para fazer sucesso em outros clubes no início da década de 90. Temendo por casos semelhantes, diretorias anteriores seguraram nomes como Negueba e Diego Maurício, que tiveram propostas do exterior no momento em que surgiram. A atual segurou Jajá após o Mundial Sub-20, para depois encostá-lo no grupo de profissionais sem utilizá-lo muito.

Com essas vendas e as não negociações do Flamengo, os clubes citados acima tinham o potencial de alcançar e ultrapassar o Rubro-Negro no orçamento final para as temporadas. Mais do que isso, se consolidaram como bons exportadores de jogadores, com a maioria dos nomes batendo e ficando no exterior. Essa imagem, apesar do sucesso de Renato Augusto na Alemanha e da boa fase de Jorge no Monaco, o time carioca ainda não tem.
O insucesso da maioria dos jogadores campeões da Copinha de 2011 também pesou muito no processo de não utilização da base no clube. Adryan, Negueba, Thomas e Frauches, para ficar em poucos, não deram a resposta esperada nos profissionais, muito em função de uma transição atrapalhada que os lançou aos leões num momento conturbado da história do clube, com salários atrasados e um turbilhão de críticas após a eliminação na Libertadores de 2012. E também um pouco pelo deslumbramento deles, que subiram antes da hora. A Copinha, vale lembrar, tinha um limite de idade menor na época.

Mesmo um pouco antes da afirmação de Paquetá, o uso da garotada já era cobrado por muita gente no clube. E a cautela excessiva de Zé Ricardo (fundamental na formação desses garotos) em utilizar garotos como Ronaldo e Léo Duarte, somada à insistência do treinador com nomes não muito queridos da torcida (Márcio Araújo, Rafael Vaz e Gabriel) e aos gastos pesados em nomes como Rômulo e Geuvânio, que não deram o retorno técnico esperado (mas que, uma vez contratados, precisavam ter oportunidades), geraram uma pressão que culminou com a demissão dele.

Pouco depois, Paquetá explodiu sob o comando de Reinaldo Rueda, e Vinícius Júnior botou fogo em um Fla-Flu, contribuindo decisivamente para uma reação que levou ao empate por 3 a 3 e consequente classificação à semifinal da Copa Sul-Americana. O Flamengo foi à final, não levou o título, mas a semente do aproveitamento da base estava plantada.

O processo continua em 2018, e o clube parece ter se conscientizado que a base é fundamental como parte da obtenção de receitas, como as da venda (por um valor abaixo do mercado, na visão do blogueiro) de Felipe Vizeu ao Udinese, e também de retorno esportivo. Afinal de contas, é mais fácil e mais barato para o Flamengo, com todo o peso da marca que carrega, formar um craque do que ir às compras na Europa e voltar com algum jogador renomado de mais de 30 anos que já passou pelo auge da carreira e já sem o pique para aguentar o exaustivo calendário de jogos do futebol brasileiro.
Embora pareça, não se trata aqui de uma crítica direta a Diego, que dá sua contribuição ao time e mostra que a mescla é importantíssima. Mas de uma constatação óbvia de que o futebol se renova e dinheiro mau gasto acaba mais rápido. A bola no pé sempre vai ser mais importante do que a grife e olhar antes para dentro é fundamental, para que se evite desperdícios e o trabalho seja aproveitado da melhor forma possível.