Jogadores lamentam clássico com torcida única no Rio

10/10/2017
Foto: Divulgação

GLOBO ESPORTE: Esqueça o Maracanãzinho lotado com as torcidas de Flamengo, Vasco e Botafogo. Isso ficou no passado. O Novo Basquete Brasil começa em novembro e não terá o brilho que os clássicos cariocas já tiveram outrora. A décima edição do torneio contará pela primeira vez com três times “de camisa” do Rio de Janeiro, mas os seis jogos entre eles serão com torcida única. Por determinação do Grupamento Especial de Policiamento em Estádios (Gepe), apenas o mandante se fará representado nas arquibancadas. A medida de segurança faz-se necessária devido a falta de estrutura dos ginásios da cidade e frustra quem dá o espetáculo: Marquinhos, do Flamengo; Fúlvio, do Vasco; e Jamaal, do Botafogo, não escondem a tristeza com a situação que parece não ter solução.

– É uma situação corriqueira no esporte, ainda mais torcida do futebol, Mas já penso e fico triste por um legado que não foi deixado. Uma cidade olímpica, com ginásios excelentes, e não ter condição de colocar duas torcidas em um ginásio. Isso é um absurdo de se pensar – desabafa o armador Fúlvio, do Vasco.
Segundo a Polícia Militar, nenhum ginásio do Rio de Janeiro conta com estrutura para que as torcidas entrem por portões individuais e fiquem isoladas nas arquibancadas. Assim, a lista de exigências enviadas aos clubes no ano passado praticamente inviabilizam os jogos com duas torcidas. O Maracanãzinho está fechado desde a Olimpíada e sua situação segue incerta, já que faz parte do complexo arrendado para o Consórcio Maracanã, liderado pela Odebrecht, e que desde o ano passado informou sua opção por devolver o estádio ao poder público. A outra alternativa é a Arena Carioca 1, que recebeu os jogos de basquete na Rio 2016. Ela, inclusive, foi a escolhida pelos clubes e pela Liga Nacional de Basquete para os clássicos, mas não há estrutura para duas torcidas.
– É o meu sonho. E fiquei triste. Fiquei sabendo pelo Póvoa (dirigente do Flamengo), que teríamos torcida única nos clássicos. Fiquei chateado, a minha vontade era de ter o Maracanãzinho lotado, a Arena lotada, a torcida fazendo a festa, grandes jogos… O Vasco está com um timão, time bonito, o Flamengo refez o seu plantel. Seria um confronto interessante. Todo mundo acaba perdendo um pouco. O Flamengo, o Vasco, o Botafogo… – diz Marquinhos, que está no Rubro-Negro desde 2012 e para jogar um Flamengo e Vasco com as duas torcidas teve que viajar para Manaus no ano passado, em confronto do returno pelo NBB – o jogo do turno foi com portões fechados na Arena da Barra.
Por conta da situação, o Campeonato Carioca deste ano nem aconteceu. Flamengo, Vasco e Botafogo acharam por bem cancelar a participação no torneio pela inviabilidade de ginásios e a impossibilidade de jogarem com as duas torcidas presentes. Sem os clássicos, o campeonato seria deficitário. Entre os dias 25 e 31 deste mês, por exemplo, os primeiros encontros entre Flamengo, Vasco e Botafogo acontecerão em Belo Horizonte, em torneio amistoso na Arena Minas. Esses jogos seriam também no Rio de Janeiro, mas pelo mesmo motivo foram remanejados.
– Ficamos tristes. Primeiro por não ter o Estadual, que seria um aquecimento para o NBB. A gente vive de motivação, desse calor dos jogos, é importante ter torcida. Isso nos motiva bastante. Agora no NBB também será jogo de torcida única. Infelizmente passamos por isso. Não está em nossas mãos, nem do clube, que não tenho dúvida, queria essa participação das duas torcidas. Paciência – conta Fúlvio, armador que estava em Brasília, chegou ao Vasco esse ano e contava com a chance de jogar um clássico com as duas torcidas.
No Botafogo, a sensação é a mesma. O clube, assim como Flamengo e Vasco, já escolheu a Arena 1 do Parque Olímpico da Barra para receber os clássicos do NBB. As datas de todos os duelos estão definidas, mas poderão mudar caso haja um conflito de dias com os jogos do Rio de Janeiro e do Sesi na Superliga de Vôlei ou eventos no local. Jamaal, armador americano do Alvinegro, lamenta a situação.
– Todo mundo perde. A torcida quer assistir ao jogo e nós queremos jogar partidas assim. Já perdemos o Carioca. Perdemos a chance de chegar melhor no NBB, em termos de preparação. E o torcedor precisa entender que eu, quando a bola sobe, não gosto do Marquinhos ou do Fúlvio, vou falar várias coisas para eles, vou tirá-los do sério, mas quando o jogo acaba, somos todos amigos. O Fúlvio é talvez o melhor armador do NBB, o Marquinhos é o melhor jogador do NBB. Todos têm o meu respeito – explica Jamaal.
Liga Nacional de Basquete tentou de tudo
A Liga Nacional de Basquete tentou de todas as formas viabilizar jogos com duas torcidas no Rio de Janeiro. Desde o ano passado, teve reuniões com a Polícia Militar e os clubes. Mas foi em vão. Para a LNB, a perda é grande. Jogos como Flamengo e Vasco são um grande produto e proporcionam divulgação da marca e do próprio Novo Basquete Brasil. Para o Superintendente da Liga, Sérgio Barbosa Domenici diz que o problema extrapola o basquete e começou no futebol. Ele acredita que só um pacto nacional de paz nos estádios, envolvendo torcidas organizadas, resolveria a questão, sempre envolvendo clubes, Ministério Público e secretarias de segurança de cada estado.
– Assim que nós tivemos dois times de camisa no Rio de Janeiro (com a volta do Vasco), procuramos as autoridades e tentamos viabilizar no Maracanãzinho. Não foi possível, já que o ginásio segue fechado. Depois, tentamos a Arena da Barra. As questões de segurança não comportaram o que o Gepe pedia. Os jogos com torcida única serão um processo de amadurecimento e esperamos um dia poder fazer isso finalmente. De qualquer forma, temos convicção de que teremos sempre casa cheia, já que são torcidas de apelo popular – garante Sérgio.