Especialistas fazem ressalvas sobre terreno de estádio do Flamengo

13/09/2017
Flamengo até morrer – Foto: Divulgação

O GLOBO: Especialistas em segurança pública e urbanismo veem com ressalvas e preocupação a possibilidade de o Flamengo construir um estádio para 50 mil pessoas na Avenida Brasil. O clube assinou, na quarta-feira, contrato de opção de compra de um terreno com cerca de 160 mil metros quadrados próximo à Refinaria de Manguinhos, na Zona Norte do Rio. De acordo com analistas ouvidos pelo GLOBO, seriam necessárias medidas para aumentar a segurança no local e para que o projeto arquitetônico do estádio garanta um benefício à região.

O terreno fica próximo a comunidades dominadas atualmente pelo crime organizado, como Parque Arará, em Benfica, Vila do João, parte do Complexo da Maré, e Manguinhos. No momento, não há estações de trem ou metrô próximos. Um trecho do BRT Transbrasil que passaria pelo Caju, próximo ao terreno, cuja inauguração estava originalmente previsto para antes dos Jogos Olímpicos de 2016, ainda está em construção. Hoje, se diz que a estação deve abrir no ano que vem. O trecho que vai do Caju à Central, porém, sequer foi licitado.
Washington Fajardo, arquiteto e urbanista, afirma que é necessário haver um meio de transporte de alta capacidade a, no máximo, um quilômetro de distância de um estádio dessas proporções.
— Esse é o primeiro ponto que deve ser levado em conta ao se examinar um terreno. Não dá para organizar algo dessa magnitude pensando apenas no carro, porque isso geraria muita intensidade de tráfego — afirmou.
O coronel da reserva da Polícia Militar (PM) Paulo César Lopes lembra que é comum observar arrastões naquela altura da Avenida Brasil e teme pelo bem-estar dos torcedores
— É uma região que considero crítica. Trata-se de área vermelha, sob o comando de facções. Vejo como uma aquisição contraproducente, sobretudo pelos riscos que oferece aos usuários — avalia.
Paulo Storani, antropólogo e ex-capitão do Bope, também acredita que os riscos à segurança dos torcedores exigiriam um aumento do efetivo policial normalmente empregado em jogos de futebol. Para ele, o Flamengo pode trazer um “problema para a cidade” caso leve adiante a ideia do estádio na região.
— O clube está levando em consideração apenas a possibilidade financeira, e não tudo aquilo que possa acontecer aos torcedores. Traz um problema para as instituições de segurança, que precisam mobilizar um efetivo muito grande — critica Storani.
‘MURALHA’ NO ENTORNO
Lopes avalia que a participação da polícia precisaria acontecer antes mesmo de o estádio ser erguido, com orientação ao clube para garantir a segurança já no projeto estrutural.
— O entorno do estádio precisaria ter barreiras físicas para impedir que disparos atinjam os espectadores. Seria preciso erguer muralhas no entorno, e não estou falando do goleiro do Flamengo, não. São muros de verdade, altos, que previnam danos colaterais — opina Lopes.
O ex-chefe da Polícia Civil Fernando Veloso também demostrou preocupação. No entanto, tentou fazer uma análise fria e ver o lado bom da possível construção:
— Me manifestando de forma fria, acho que é uma boa iniciativa. O que o Estado tem que fazer é buscar a segurança de que o local precisa. Não é porque a área está degradada que isso deve parar e todos devem desistir. O estádio serve como um estímulo para o Estado levar segurança e estrutura à região — afirmou.
Veloso lembrou o histórico do local, que já foi uma área industrial vibrante e com terrenos de alto valor de mercado.
— Se você levantar o histórico da região, ela era muito ocupada por empresas, indústrias, porque era um local estratégico, com acesso a várias regiões da cidade. Só que hoje está tudo abandonado. Ela foi ficando cada vez mais degradada. Isso é muito ruim, traz mais insegurança, problemas para a região. Se houver um novo estádio, isso pode trazer novos empreendimentos. Então eu diria que isso é positivo, mas preocupante.
PRÓXIMO A SÃO JANUÁRIO
Para que de fato o estádio revitalize a área, é necessário que o plano do Flamengo para a arena crie condições para isso. Washington Fajardo dá detalhes do que o plano precisa ter:
— Ainda temos feito estádios no Brasil que são monofuncionais, ou seja, só se prestam ao futebol — opina. — Esses estádios poderiam estar associados com centros de convenções, amenidades, espaços de conveniência. Se o projeto arquitetônico dessa arena for feito dessa maneira, ele será positivo para essa região. Mas, infelizmente, essas práticas são exceção no Brasil, e não regra. Aqui, não se costuma fazer um “master plan” antes de construir os estádios. Acho que, infelizmente, os dirigentes daqui não pensam assim.
O terreno em que pode ficar o estádio é relativamente próximo de São Januário, casa do rival Vasco. Não haverá partidas dos dois times no mesmo dia, algo que já costuma ocorrer atualmente. A proximidade também pode indicar algo apontado por Fajardo: um excesso de estádios no Rio de Janeiro.
— Chama a atenção essa coisa de cada clube ter um estádio. Não faz sentido termos o Maracanã ocioso, o Engenhão (Estádio Nilton Santos) que não tem tanta intensidade de uso, além de São Januário e outros locais menores, como a Gávea — afirmou.
Os problemas do Flamengo com a concessionária do Maracanã contribuíram para a decisão do rubro-negro de fazer seu próprio estádio. Se a arena do Flamengo de fato sair do papel, o palco da final da Copa do Mundo de 1950 fica ainda mais esvaziado: Flamengo, Vasco e Botafogo teriam outras casas.

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